sábado, 7 de novembro de 2009

a prévia

A vida tem prévia para tudo. Algumas prévias, já estão até previstas nos calendários e nas leis dos homens. É prévia de carnaval, aviso prévio, pré-reveillon. E eu fico aqui prevendo o fim do ano – prevendo o início das férias, melhor dizendo. No mais, pensar em semanas me conforta bastante. E passam-se as semanas, os segundos, e os terceiros. Em plural ou singular. Ímpar ou par. Tanto em oxe ou bah. Previamente digo-lhes um panorama de onde estava e para onde fui; além, dos prévios planos cogitados e dos em ação.

Não é nada pessoal, mas algumas pessoas têm uma mania incorrigível de aceitar todas as coisas na vida – o que acaba comigo. Já não sei se é minha mais pura incompetência ou a falta descarada (diga-se de passagem, vindo de uma publicitária, muitíssimo descarada) de criatividade para dar um basta de forma sutil. Sutileza, aliás, tendo sido um anti-elogio quando amigos ou até mesmo desconhecidos se referem a mim. Penso que já não sou o que era antes (e nem queria ser a mesma coisa). Algumas nuances particularmente me preocupam – o detonador é o fato de que a vida é essa grande vilã que estava desconfiando. Achei que sempre gostasse de tudo muito intenso: fragrâncias, sabores, texturas, cores. Como as sensações de plenitude e de serenidade não são meu grande forte, atualmente elas realmente me preocupam, contudo tenho gostado, ou melhor, tenho me adaptado a esse estado vegetativo – como gosto de definir a máscara da serenidade e da plenitude.

Pensei que só o mundo fosse plano. A gente tenta alcançar o plano (no melhor duplo sentido que vou conseguir nesse emaranhado de pensamentos), mas nunca está satisfeito. Qual é o seu plano? Eu me pergunto. Estou tentando há alguns meses sair da prévia que foi previamente solicitada e tem de ser previamente planejada. Tenho planos. Vários deles. De ao menos parecer um ser mais humano e menos maquina. De ser mais paciente e tolerante comigo mesma e com qualquer coisa ou pessoa que esteja a um raio mínimo de 1 metro. Planos de intimidar com afecções que nunca me pertenceram. Tenho um plano que acho que tem dado certo: contaminar as pessoas com um pouco da minha felicidade, um pouco do meu sorriso. Tenho planos de fazer meu coração parar de dançar break. Também tenho planos de assaltar uma loja com jacarés em suas confecções só pela incorreção. E planos clássicos como dominar o mundo – um salve para Pinky e Cérebro. Um salve àqueles que ano a ano entram na minha lista “Pessoas especiais” porém muitas corriqueiramente ainda ocultas. Ah. Também tenho planos infalíveis de arrasar com uma sandália sexy classificada como aquisições “amei, comprei”.

Não vou saber nunca. De nada. Intensidade, instabilidade, desapego e desesperança pode ter nome, sobrenome, endereço e CPF.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

no auge dominical, a incompetência é nata

Passar a maior parte do tempo em absoluto silêncio parece até uma terapia. É você sem o resto do mundo. Milhares de coisas simultaneamente. A última é que venho tentando saber é como eu não consigo ser competente a maior parte do tempo quando não estou afundada nesse deserto dos meus próprios ruídos. Porque diante do mais absurdo vácuo, do silêncio ímpar no auge dominical, a incompetência é nata. Após duas sessões seguidas de comédias românticas, salada de frango especial e uma surfada pelas redes virtuais, tentar voltar a sonhar é uma atitude bem ousada.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

o branco mais branco

Estava tudo tão branco que eu mal enxergava a chuva pela janela. Tão branco que até a felicidade estava transparente. Mas, mesmo a chuva consegue deixar suas marcas. A felicidade, pois, continua invisível.

Pensando bem, o branco pode definir a felicidade - ainda que invisível - porque a reunião de todas as cores é isso. É simplesmente branco. Felicidade é tudo junto. Todos os tons, as texturas, quaisquer opacidades: felicidade é o branco mais intenso do mundo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

solidão costumeira

Às voltas com aquela solidão costumeira. Vem a memória aquele suave cheiro da inércia - menos alegre, ou mais triste, tanto faz: só sei que é breve a suavidade.

Nada é tão menos intenso que esta solidão, este vazio. Eu venho analisando todas as situações e hipóteses possíveis - me canso - e chego sempre a mesma conclusão. A mais ridícula conclusão. Parece que todos estamos numa mesma "fase", ou melhor, num mesmo paradigma. Não importa o quanto nos esforcemos para aceitar ou compreender: seremos sempre vítimas e réus (sim, simultaneamente) de nós mesmos. Seremos sempre fuga.

Que seja breve a solidão
Que tenha fim a melancolia
Mesmo otimista a precaução
Mesmo esperançosa a expectativa

quinta-feira, 9 de abril de 2009

apenas mais uma

A gente se esforça para não sucumbir ao nossos papéis - quase deveres - sociais. Aos repetitivos comportamentos que nos inundam de ilusão, de uma falsa glória, um falso aconchego. A gente teima em mergulhar de cabeça para não lembrar de nós mesmos - e fugir de não sei quê -, e das decisões que temos de fazer para disfarçar o quão nos tornamos alheios. E a gente continua se esforçando para ser nem sei qual: e sucumbe!

E o medo de mostrar o que realmente somos - na tentativa insuficiente de administrar tantas identidades - novamente os papéis. Um dia aquela pequena narcisa percebeu a marca de catapora. A marca é de infância, faz parte dela; é da sua natureza não querer se livrar. Este pode ser um ponto crucial na história. Da natureza. De quem? De onde? Onde quer chegar com toda essa natureza: essa dissimulada naturalidade? Pensa ela que não se importa. Mas ela pensa também que pode ser diferente - ah, a arte da convivência! -, e acredita fiel e fidedignamente nisso.

E estou as voltas daquele tom nostálgico perfumado a despretensão. Daquele paralelo subentendido. A fraqueza intrínseca e abstrata é o que mais me revolta. Além de alheio, a antiga revolta pelo oculto esquecimento das perdas e ganhos. Lulu, você foi muito feliz com todo esse ostracismo romântico. Tudo é mesmo repugnante - a fraqueza, o abstrato, a forma aparentemente despretensiosa. Pode-se negar essa natureza? É, Lulu, você quase sempre tem razão. Mais ainda quando disse que a beleza é mesmo tão fulgás.

sábado, 7 de março de 2009

recomendações de 'como ser uma mulherzinha'

Querido Dr.,

Tenho estado um pouco apática seguindo à risca as suas recomendações. Tem sido quase impossível o desaparecimento de peculiares sintomas. Confesso que aqui ou ali eu tenho omitido alguns fatos. Eu minto quando digo que não penso em coisas (in)definíveis em apenas 3 palavras. Minto quando digo que vou fazer yoga na tentativa de esvaziar minha mente. Sou bipolar demais para tal. É impraticável. Mas até isso o Sr. já sabe. Somos tão parecidos. Por isso a gente se entende tão bem. Mas, não, prefiro não ser uma versão espelhadamente masculina sua (espelhadamente... existe essa palavra, dr.? será mais um dos meus inventos?).

Pretendo fazer mais uma confissão. Primeiro, acho que o Sr. deveria comprar um divã. Mudar de especialidade também, pode ser útil (para mim, é lógico). Bem, a segunda é que sua receita de 'como ser uma mulherzinha' não tem funcionado para mim. Eu fico me sentindo uma pequenina figura de papel. Não sei ter um papel a cumprir, muito menos sê-lo - selo... poderia ser um selo.

Eu falei que minto não é mesmo, Dr.? Pois bem. Eu minto mais que o Sr. imagina. Não se desespere com isso. É profundamente normal que eu seja uma grande mentira. Suas recomendações me servem como um disfarce de mim mesma. Eu tenho sido uma verdadeira mentira. Para tentar lhe consolar, vou falar a verdade: entre as suas intoleráveis indicações tenho sido fiel a uma... a medida em que consigo completar a deleção dos arquivos alfanuméricos incrustados nas pequenas unidades do meio de comunicação móvel, eu vou me libertando. Algumas memórias vão-se naturalmente apagando.

Bem, Dr., era basicamente isso. Peço que o Sr. repense as minhas recomendações, algo como trabalhar melhor a idéia. Não faça eu me auto-medicar, Dr. - dizem que pode ser perigoso.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

a redundante

Será que só ela tem essa mania obssessivo-compulsiva por definições? Ela que se julga tão normal. Que acredita ter hábitos saudáveis - vê borboletas em qualquer fundo preto-e-branco. Que tem mania de achar que tudo é especial. Se ela perguntar a alguém o que gosta de fazer, apostaria na resposta sem quaisquer redundâncias: "gosto de ir a praia", gosto disso ou daquilo. Mas se alguém a pergunta o que gosta de fazer, diria com todas as reticências - afirmaram-na reticente... será? Ela, que se admirava tão incisiva... - "gosto da brisa do mar". Gosta das essências. Ela que em tudo vê alma.

Sempre com a reticência (dos) normais que lhe cabem, pensa na redundâcia como fluido vital dos seres humanos. Ela não é tão impossível quanto acredita ser. Ela faz parte do plano de autocorrosão no vácuo. A peste de si mesma. Sua figura (mais que im)própria é a indefinição. Sua descrença mais profunda. Uma representante de outras eras. Dos poetas de amores crônicos, dos amores impossíveis - vai ver ela é de fato a impossível de outrora -, dos poemas anacrônicos - de quando se morria por amor.

É. Quem sabe ter vindo de outras eras, outras quimeras. Desta idiossincrasia peculiar aos tempos de Romeu, e Julieta, e Orfeu, e Hamlet. Essa coisa arraigada de querer ser peculiar autenticamente exclusiva. Não, nem é tão redundante assim. É dantes perdida - não de hoje.

Por que essa mania de definição? Maldita seja essa ansiedade. De querer ver tudo na perfeita ordem. Ei, aí estão as incertezas. Você, rainha da incerteza. Matriarca de outros ventos inquisitores e anômalos sob sua própria natureza. Nebulosa e intensa natureza. Não se contentou apenas com a selva. Quer a relva, a régua, a reta. Quer tirar todas as possíveis medidas - as impossíveis também - para ter a certeza da incerteza.

Quer por pouco estar muito perto. Não se atreve a atravessar - veja que atrevida. Se compromete consigo mesma em suspirar de susto - um verdadeiro (auto)massacre. Quer sempre estar por um fio. Prometeram-na. E, assim, ela vive esse eterno retorno que um dia a fizeram acreditar que existisse.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

para ele

Ela só sentia que a hora chegava. Quando? Não saberia responder. Só sente aquela onda – um misto de felicidade e tristeza, de paz e inquietude, de leveza e peso, de ternura e também carinho.

Ela só quer continuar sentindo, sem ter certeza de nada... ah! Sempre fez questão das incertezas... seu tempero ambíguo preferido. A dúvida é instigante. E, a insegurança não é o cenário mais agradável ou confortável. Mas como é leve o cenário – não menos intrigante.

Insustentável? Talvez. Porém, de quantos cenários é feita a vida? Quantas levezas ou pesos?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

espanto (nada) irônico

De que me adianta ser surpreendente, se aquela dos ideais não me causa espanto algum? É um desperdício estúpido ser "sensacional" - que demanda sensações... apenas um espanto irônico te é suficiente. Porque os atos são corriqueiramente também estúpidos; as palavras denotam maresia no prego já demasiado gasto pela brisa marítima; atitudes inversamente proporcionais aos desejos (se é que eles de fato existiram) - seria eu uma presunçosa? Uma louca exageradamente imaginativa? Não, não. Sou somente aquela que crê. Crê muito em muito. Sonhadora, talvez. Mas, deveras incansavelmente descombinante, destoante às amarras "idealistas"da maioria comum...