
Pensei. Parei. Pesei.
Rosa-choque? Verde-limão?
Na dúvida, os dois? Nenhum?
Indecisão.
Gaiola, terreiro?
Solto, poleiro?
Ah, esses pintinhos de feira.



Para coçar o meu olho, enquanto minhas mãos estão sujas de alho.
Alguém que lave as minhas mãos, para eu poder acariciá-lo.
Alguém para dividir comigo minha dor de dente.
Para correr na praia num verão de noite quente.
Alguém que faça uma massagem nos meus pés antes de dormir.
Para dividir a água mineral - não o sorvete que eu pedi.
Alguém que prenda o meu cabelo quando eu estiver lavando o rosto.
Que tire o esmalte das minhas unhas, e passe creme no meu corpo.
Alguém que me faça rir até a barriga doer.
Que ao passar faça a minha atenção prender.
Alguém que olhe sério nos meus olhos e seja meu amigo.
E dizer para sempre o quanto gosta e se importa comigo.
Alguém que tenha uma mente livre - que é coisa rara.
Alguém que nunca me viu mas goste de mim logo de cara.

Caros superiores, obrigado. Por fazerem meu ser chorar e sorrir tão paradoxalmente. Por me largarem na estrada da solidão e da determinação. Pelos ensinamentos, em principal nesta fase da vida: andar com as próprias pernas. Sou muito grata por insistirem em ser pérola – com todas as suas virtudes e defeitos, deixar-me levar pela escuridão que a assola. Mais uma vez obrigada, por se dirigirem socialmente e me sorrirem simbolicamente. Essa emoção enfatiza a tamanha hipocrisia inevitável ao ambiente – hipocrisia que também afeta meu ser ignorante (ou seria inocente?). Porém, sou em mesma proporção paradoxal, inevitável, simbólica e repugnante. Ainda assim, sinceramente, obrigada.


Ô, menina. Verde. Ei, menina do sapato apertado, que cresce a alma na dor e no sofrimento. Me disseram que você é quem escolhe. Me ouça, você pode escolher, sim, sem medo. O que você leva nessa mala pesada? Ou seria alma pesada? Conheço essa alma. Cuidado com sua alma de passarinho. A porta da gaiola está aberta, e ele só espera os bons ventos. Mas será que o penado pode ser mais feliz? Por que mais por quês se já se firmou vencedor? Deixe de tantas interrogativas. Você é atrevido, é de prerrogativas. No samba, nos olhos, no elevador: mesmo ao lado da maioria mal-educada. Está mesmo é do lado da minoria. Deixe assim. A portinhola entreaberta.
