terça-feira, 27 de novembro de 2007

uni (co) ver so


De tarde, de manhã, ou cedinho,
É somente névoa, sem violão, nem novidade.
Névoa de furacão, névoa de solidão.
Mas nenhuma me pega de verdade.
Nem canto, nem quarto, nem falo.

Lágrimas de orgulho do espinho?
Poucos sabem ser feliz.
Ainda bem que sei assobiar de antes,
Só o ar preenche o vazio.
E os universos estão distantes.

sábado, 17 de novembro de 2007

sessão extraordinária


A inércia do meu ser é paradoxal às minhas observações. Fico assim, estática - quase sempre -, ao passo que a minha vontade é registrar o movimento dos passageiros. Eu poderia chamá-los pedestres, mas eles são, unicamente, passageiros. Passageiros da vida, que carregam a passos curtos e lentos (desses sem muita pressa), sorrisos, tempo, paixão, aconchego. Ou, quem sabe carregam em si um momento solitário de ócio. Nada é congelado - só meus registros -, tudo é instantâneo. É extraordinário. E assim encerro mais uma sessão não menos extraordinária.

sábado, 10 de novembro de 2007

alguém


Para coçar o meu olho, enquanto minhas mãos estão sujas de alho.
Alguém que lave as minhas mãos, para eu poder acariciá-lo.

Alguém para dividir comigo minha dor de dente.
Para correr na praia num verão de noite quente.

Alguém que faça uma massagem nos meus pés antes de dormir.
Para dividir a água mineral - não o sorvete que eu pedi.

Alguém que prenda o meu cabelo quando eu estiver lavando o rosto.
Que tire o esmalte das minhas unhas, e passe creme no meu corpo.

Alguém que me faça rir até a barriga doer.
Que ao passar faça a minha atenção prender.

Alguém que olhe sério nos meus olhos e seja meu amigo.
E dizer para sempre o quanto gosta e se importa comigo.

Alguém que tenha uma mente livre - que é coisa rara.
Alguém que nunca me viu mas goste de mim logo de cara.